segunda-feira, 21 de maio de 2012

E então ela disse que foi abusada.


E daí que ela foi abusada quando era mais nova.

Mas diferente das crianças abusadas, que “historicamente” acabam vivendo uma vida em segundo plano, com vergonhas, traumas e medo constante, ela superou, seguiu em frente, e acabou se tornando uma personalidade midiática.
Famosa, virou ídolo. E do ídolo pra caricatura o espaço é curto. Amiga do Michael Jackson, conhecida por todos – inclusive pelo Mickey.

Hoje, depois de anos de carreira e uma das pessoas mais bem sucedidas do “meio artístico”, não devendo mais nada a ninguém, resolve falar, e contar.

Pra que? Mais fama? Mais dinheiro? Assistencialismo?

Já foi chamada de lésbica, porque até as mulheres criticam outras mulheres que, quando não mais jovens, não andam com um homem a tira colo. Vivemos numa sociedade tão moderna...
Ela vai continuar fazendo sucesso, porque a legião de fãs e o respeito conquistado não se perdem com uma declaração. Se isso muda alguma coisa, ninguém sabe, e de fato não devia importar a ninguém. Talvez alguma menina que sofra com isso lá onde Judas perdeu as botas se identifique, e faça alguma coisa, talvez não.

Mas como somos todos inteligentes e bem resolvidos, temos o direito de apontar o dedo, afinal esse é o único direito que “aproveitamos”.

Olha lá a dissimulada, não tem mais como ficar famosa.

Olha lá a louca querendo chamar atenção.

Vergonha de ser conterrâneo de uma mulher dessas.

Não  sou mulher, não fui abusado, não sou milionário nem conhecido por todo mundo. Não sei os motivos que levam alguém a fazer uma revelação como essa.
Mas admiro a coragem. Vai ver sou mais dissimulado e não consigo acreditar que as pessoas tenham a pretensão de se promover com uma coisa tão séria.

Talvez eu dê risada de algumas piadas, afinal a gente gosta do que não é correto. Mas o  limite entre a piada e a falta de escrúpulos é tão tênue que não sei se conheço alguém capaz de não ultrapassá-lo.
De qualquer maneira, continuarei respeitando a imagem que me cabe. De apresentadora, de bem sucedida, de humanitária, de mulher bem resolvida. O resto é resto, não me diz respeito. Gosto da Oprah desde A Cor Púrpura.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Corte o monte em três


Reza a lenda (e é ótimo começar qualquer coisa com essa expressão pq nos exime de qualquer empirismo ou prova irrefutável) que se saber do futuro fosse algo bom as ciganas leriam a própria mão.
Sempre acreditei em tudo e nunca acreditei em nada, o que me deixa na zona de conforto de fazer o papel de pregador ou de advogado do diabo quando eu bem entender: não acredito em  previsões, mas já fui em cartomante. Acreditei  em tudo que ela disse, e tudo que ela disse não se realizou.
Mas quem é que tava errado? Eu por acreditar em algo que não acredito ou a cigana por me enganar acreditando que eu acreditaria em tudo aquilo?
Não vejo culpados.
Cada um de nós compõe a sua  história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz, já dizia a música.
Mas ainda no quesito credulidades (e se essa palavra não existe, deveria existir), preciso confessar que sempre tive um lado mãe Dinah.
Segundo meu anjo protetor (acho que é, ou numerologia ou outra coisa do gênero), eu teria um dom quase mágico de estar sempre a frente, de conseguir captar os sentimentos.
Claro que também dizia que eu tinha o poder de cura pelas mãos, mas né, não sejamos literais.
O fato é que sou meio Nostradamus. Ou talvez um pouco mais observador. Se pararmos pra pensar, prever o futuro não é tarefa difícil. Bem óbvia, na verdade.
Não podemos nos deter nos elementos principais. Eles são a  parte mais superficial de tudo. O que precisa ser analisado são os detalhes. As coisinhas pequenas e insiginificantes. Essas sim indicam o futuro, elas dizem o que vai acontecer.
Claro que o início é tentativa e erro. Eu mesmo já me frustrei várias vezes acreditando nas minhas previsões que deram errado. Mas então você vai ajustando, criando um método de análise cada vez mais perspicaz e pimba! Você começa a acertar tudo.
Claro que ninguém vai acreditar em você. Às vezes as previsões são absurdas. Coisas logicamente impossíveis.
Mas digo de fonte segura que funciona. E não há prazer maior no mundo que depois de um tempo passado você pode dizer “lembra certa vez que eu disse aquilo?”.
É algo como um sentimento solitário de orgulho e satisfação. Afinal, ao pé da letra, não existem motivos pra se vangloriar. Aconteceria do mesmo jeito, você não mudou nada, a pessoa não acreditou em você e também não mudou nada, simplesmente aconteceu. E o sentimento de já sabia toma seu corpo numa satisfação quase orgásmica, mesmo quando a previsão era algo ruim pra você mesmo. No meio da merda toda, pelo menos um sentimento de satisfação solitário.

Mas por que esse prelúdio arrastado e sem sentido? Pra nada, provavelmente, mas pra divagar sobre o poder que a gente tem de saber o final da história, e mesmo contra, não mudá-lo. A falta de força pra lutar contra o sentimento de satisfação,  que apesar de tão pequeno e egoísta, ser forte o suficiente pra nos estagnar na cadeira de espectador do enredo óbvio.
Covardia, talvez. Não sei.
É uma pressão social de precisarmos saber exatamente  o que acontecerá nos próximos dias, nos próximos meses, nos próximos anos. Planejar estrategicamente cada passo. Analisar cada variável. Taxas de risco. Planos B. Segunda, terceiras, quartas opções que vão minando nossa cabeça como planilhas infinitas no Excel.
Tudo precisa estar no papel. Não há espaço pra falhas. Tudo precisa ser seguido à risca, ou todo o tempo perdido no planejamento se torna, de fato, perdido. E mudar o rumo da história se torna secundário na briga com  o tempo que pode ser perdido. “Imagina mudar agora que perdi todo  o tempo pra organizar? Não. Prefiro continuar no esquema mesmo sabendo que vou quebrar a cara no final. Depois começo outro plano, mas esse deixa como tá.”
Perdemos mais tempo nos preocupando com o tempo do que com o que pode ser feito. Acaba sendo mais cômodo reclamar do tempo da viagem do que aproveitar o tempo da viagem. Mas o destino não precisa ser mais importante que o caminho  pra alcançar. O objetivo não precisa ser mais importante que o tempo perdido no planejamento.
Todo mundo devia ter tempo a perder. E todos tem, na verdade. Todos deviam saber esperar. Parar. Se não podemos deixar nada ligado por muito tempo pois corre o risco de queimar, pq a vida precisa  ser toda regrada e em funcionamento  contínuo? Por que essa  busca incessante do produto final precisa ser tão importante a ponto de não se aproveitar o  tempo que levamos pra alcançar?
Ah, se as pessoas soubessem quão bom é ter um tempo perdido. A  sensação maravilhosa de deixar o objetivo em segundo plano. Ele virá, você sabe. Você já previu. Aproveite o tempo que vai  levar pra alcançar.
Sempre me pergunto se essas pessoas que seguem seus planos sempre a risca e não perdem tempo com nada tem pressa em morrer. Por que né? Não precisa ser vidente pra saber onde tudo isso vai dar.

Como os ciganos, aproveitar cada dia. Viver cada momento. Ignorar objetivos, afinal o máximo de decisão a ser tomada é onde vou  viver no próximo mês. E se eu errar o destino? Foda-se. Não terei perdido tempo. Terei aproveitado o improvável. Mês que vem  tentamos diferente.

Conclusão? Acreditamos demais nas coisas que não acreditamos, porque é mais cômodo. Desistimos daquilo que nos faz perder tempo, porque a satisfação do acerto, a satisfação do  alcançar o objetivo e saber que você estava certo é mais importante que o final feliz. O final desejado é muito mais importante. Mesmo que dê errado.
Só queria ser sábio como as ciganas e não saber do futuro. Ser surpeendido. Aproveitar. Perder tempo.

Por hora, só sei que você está lendo isso, se perguntando  o que eu quis dizer com tanta enrolação, reclamando que o final não é óbvio e a mensagem não é direta, e tendo a certeza de que perdeu seu tempo. O  final é óbvio. E você realmente perdeu tempo. Parabéns, pode colocar as cartas de volta no monte.

domingo, 4 de março de 2012

to be uai.



Dizem (e eu já disse) que o tempo cura tudo.

Apesar de querer acreditar que sim, duvido muito. Hoje prefiro acreditar que o tempo é conformador, e que o que é distante fica cada vez mais enterrado. Acredito nos momentos, nos espaços de tempo significativos, aqueles que marcam. Esses o tempo não deixa esquecer. Esses o tempo não deixa enterrar.

Momentos-segundos, aqueles de um olhar, de um pré-conceito. Momentos-minutos, de um beijo, de uma transa, de um filme no cinema. Momentos-horas, de um passeio sem compromisso, de um sono dormido junto. Momentos, momentos, momentos, a vida é, de fato, um grande momento.

Momentos longos em que a vida parece não ter mais rumo ou caminho, momentos feitos mais de lembranças que de vivências.

Momentos-segundos em que decide-se viajar pra um lugar desconhecido, sem pensar em consequências.

Momentos curtos demais para conhecer pessoas incríveis que comem quieto. E que comem queijo.

Pessoas incríveis que te dão abraço apertado e sincero. Que te dizem pra voltar, e não é da boca pra fora.

Pessoas que te fazem caminhar ladeiras e estourar o joelho para conhecer um lugar novo, aquele que “ocê precisa conhecer, uai”.

Pessoas que te recebem em suas casas, e depois de cinco minutos de conversa já se tornam pessoas queridas, e fazem com que você também se sinta querido por elas.

Descobrir essas pessoas, descobrir esses lugares. Descobrir que os momentos passam, mas as lembranças boas ficam. Descobrir que os momentos passam, e as lembranças ruins de outros momentos se tornam cada vez menores, e acabam caindo no esquecimento. Como descobrir que arriscar viver o momento é bom.

Como descobrir que sentir saudade (se não for de sentir saudade) é melhor ainda.

Como descobrir que João + João pode ser = um.

Como descobrir a beleza de um Van Gogh mesmo não gostando de Van Gogh. E descobrir que Gogh e Kandinsky podem ser uma ótima dupla.

Como descobrir que o menino grosso e pouco simpático do sul pode ser feliz comendo pão de queijo.

E descobrir que os momentos passaram, as lembranças ficaram, mas o tempo já tá se encarregando dos novos. E que não sejam breves. E que venham logo.