quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

duplo sentido.

Morre lentamente
Quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo

Morre lentamente
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos
Olhos e os corações aos tropeços.

Morre lentamente
Quem não vira a mesa quando está infeliz
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos...

Viva hoje !
Arrisque hoje !
Faça hoje !
Não se deixe morrer lentamente !

Não se esqueça de ser feliz!


(Quem morre? - segundo O Pensador, da Martha Medeiros.. não confirmo, mas gostei igual..)

domingo, 13 de dezembro de 2009

estranho.

Hello stranger, ela diz, lindamente no filme..
Strange, estranho.
Estranhez (se é que essa palavra existe) é, ironicamente, e por si, um sentimento deveras estranho mesmo.
Estranho, por exemplo, rever o filme de Amelie, que outrora já amei, antigamente odiei, e assim continuo, nesse “paradoxo sentimental”. Pois ora tenho vontade de matá-la, ora de amá-la. Afinal, ela fez mal a seu pai. Por tempos, deixou-o confuso, desorientado. Triste. Sim, com uma intenção boa no final. Mas de boas intenções, o inferno está cheio, então por que gostar tanto dela assim?
São pequenezas, coisas miúdas, atitudes por vezes infantis, por vezes sem pensar. Mas atitudes são atitudes, e atitudes geram outras atitudes em resposta. Amelie teve sorte. Suas traquinagens geraram coisas boas, como ela esperava. Mas Amelie é uma menina de sorte, Amelie não teme, Amelie não erra. Amelie é uma estranha Poliana.
Mas tantas coisas estranhas e sem explicação existem há tanto tempo que acho estranho não terem ainda descoberto suas razões. Afinal, por que as coisas estranhas existem?
Pois me é muito estranho saber que as pessoas trabalham a vida toda, guardam dinheiro a vida toda e, de repente morrem. Estranho a maioria não pensar que deveriam guardar um tempo pra gastar o dinheiro guardado. Estranho mesmo é nem saber quanto tempo teremos.
Por que é estranho chorarmos quando estamos excessivamente felizes. A Biologia até pode tentar explicar, mas que é estranho, ah, isso é. Assim como estar triste, muito triste, e não conseguir chorar. Mas ora, se você está triste, chora. Mas não sai. Estranho. E não deveria ser assim.
Por que é estranho você ter um passarinho ou qualquer outro bichinho de estimação, tratá-lo bem, cuidar para que não fuja, afinal você sabe que se fugir ele ficará mal, poderá sofrer, dar comida a ele, afeto, carinho, atenção. E assim, numa oportunidade qualquer, ele foge. E não volta mais. Estranho. Se você fez tudo para ele o tempo todo, por que fugir? E o pior, e mais estranho: ele sabe que vai acabar morrendo, se arrependendo, você avisou. Mas, mesmo assim ele vai. Vai entender..
Arrepender-se é algo muito estranho. Se você fez, e sabe que está errado, que direito tem de se arrepender? Se arrependimento fosse um ticket de volta ao passado, até se entenderia, mas, ora, de que adianta? E todos, mesmo assim, se arrependem. Estranheza pouca é bobagem.
Então o mundo vai acabar, todo mundo sabe disso, a água ta no fim, o ar ta poluído, o apocalipse ta ali. E ninguém faz nada. Estranho esse sentimento comum de que não vai acontecer com você. Mas, de alguma maneira, sempre acontece com você, já notou? Talvez porque só pensamos nisso quando, de fato, acontece com a gente, então fizemos questão de dizer: “é, eu achei que nunca ia acontecer comigo”.. Mas então não deixe acontecer, é simples. Volta a questão do arrependimento, volta à questão do passarinho na gaiola. Volta a raiva da Amelie que não se arrependeu, porque, sortuda, conseguiu que tudo desse certo.
Estranho ver um mendigo na rua e ignorá-lo. Ver uma criança pedindo esmola e, sabendo de que nada adianta, dar um trocado. Estranho o sentimento de incapacidade com coisas que estão acontecendo e você não pode fazer nada, absolutamente nada, mesmo que, em teoria, cada um poderia fazer a sua parte. Estranho, às vezes, não termos essa alternativa no caderninho de respostas. Ou seria no das perguntas?
Estranho perguntas não terem resposta. Estranho você querer fazer alguma coisa, e, por vezes, fazer, sabendo que não é certo, mas você faz igual, pois conta com as tais das variáveis incontroláveis. Ou, justamente, porque não conta. As coisas acontecem, e o que deveria ter sido bom, deu errado, e você acha que fez certo, porque acreditava, e talvez continue acreditando. Estranha essa teimosia em continuar acreditando mesmo nas coisas que acabaram. Em imaginar que depois dos créditos dos filmes, a história continua. E o final triste pode virar feliz. E o final feliz pode dar com a cara na realidade.
Estranho pensar que existe filme após os créditos.
Estranho pensar nas coisas estranhas.
Estranho ver sua gata ficar perto de você, e acreditar que o misticismo que existe em cima dos gatos pode ser verdadeiro. Estranha a sensação de descoberta infeliz, afinal, seria mais divertido ter aprendido com os livros.
Estranho comer Nescau ate arder a garganta, afinal, se arde, é porque faz mal. Estranho comer como um condenado à prisão e depois reclamar que engordou. Estranho ter que pensar antes de fazer, e mesmo assim não pensar. Estranho pensar demais, quando nem há mais o que pensar.
Estranho ligar sabendo que não vai ser atendido. (de fato, só de imaginar que numa ligação a voz passa por um fio e chega do outro lado exatamente como você queria já basta de estranheza). Estranho tentar uma segunda vez, quando tudo quer dizer, e diz, que já não dá mais. Mais estranho ainda persistir. Mais estranho ainda é não querer desistir. Mais estranho ainda é amar, e querer, e insistir. E errar, e tentar, e lutar. Estranho ainda notar que está sendo em vão. Estranho ter que guardar sentimento, estranho não poder compartilhar. Estranho ter que voltar a uma vida normal quando parte de ti se acostumou com uma outra vida.
Estranho ter que sair na rua calçado. Estranho ter que arrumar o cabelo sempre antes de sair, se todos os fatores climáticos o estragarão. Estranho fazer a mesma coisa todos os dias pensando que o resultado ser diferente.
Estranho que pensar que a estranheza está tão próxima da burrice. Mas pessoas burras não são estranhas. Pessoas burras não insistem, pessoas burras não fantasiam, pessoas burras. Mas atitudes estranhas são tão burras, do mesmo jeito. Estranho.
Esdrúxulo. Diferente. Bizarro. Estranho.
A Lady Gaga é estranha. Hoje eu chorei ouvindo Lady Gaga. Isso é mais estranho, mais ainda pelo fato de, naquele momento específico, eu não estar pensando em nada. Estranho ver O Crepúsculo de madrugada, e entender que a história é bonitinha. Estranheza mais vergonha dá em quê?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Nov, 18.


Acabo de voltar de um feriadão surpreendentemente inesperado e, ao mesmo tempo e mais surpreendente ainda, extremamente simples.

Depois de decidir de última hora viajar com minha família, desistindo (?) de outro plano antes combinado, acabei indo sem pensar para a casa de alguns parentes em São Leopoldo. Não deu tempo de programar nada. Nem sabia ao certo se queria ir.

A viagem de ida foi tragicômica, um misto de felicidade e ansiedade e tristeza e preocupação. Mas, com o passar das horas, os problemas foram ficando cada vez mais distantes, talvez seguindo o número de quilômetros rodados.

Ao chegarmos, com o início do dia, uma festa, ali, no meio da rua. Beijos, abraços, (re)apresentações (afinal mais de 10 anos se passaram, e quem ainda ontem era uma criança já tem mais de um filho..), carinhos, saudades, risadas, alegria. Alegria é a palavra que pontuou os últimos dias, inclusive.
Como é gostosa a sensação de se sentir querido. Como é bom ver no brilho do olho do outro a felicidade estampada em nos ver. Como é bom saber que é um sentimento puro, altruísta, sincero.

E conversas foram, e voltaram. Novos parentes iam chegando (foi complicado decorar o nome de mais de 10 novos membros da família). Mais carinho (recíproco) ia povoando os dias, que já pareceram mais curtos, as horas passaram rápido, e a vontade de prolongar aquilo, talvez eternamente, só aumentava.
E quem lembrou que existia internet, celular e qualquer outro meio de comunicação? Naquele momento fazer parte do mundo era desnecessário. Nos bastávamos. Poderíamos fazer parte de um grupo secreto, como aqueles dos barbudinhos americanos que vivem como os antepassados, sem qualquer ligação com o mundo real.

Muito barulho, muita conversa, muita risada. E apesar do calor beirando o absurdo e o ar condicionado ser um parceiro constante, até minha alergia, eterna companheira, resolveu dar uma trégua. Talvez ela não se atrevesse a atingir alguém que estivesse tão bem consigo.

Claro que entre uma conversa e outra algumas comprinhas, algumas festinhas regadas a MUITA cerveja (e muita mesmo, a ponto de eu não lembrar de ter tomado água em um desses dias, só álcool), pessoas diferentes, alguns banhos de garrafas pet e galões de água gigantes (como é bom não sentir vergonha de ser criança de vez em quando) sempre caem bem. Mas mesmo sem isso tudo já teria sido perfeito.
Enquadrar uma família (ou parte dela) com mais de 20 membros (número exorbitante para uma desagregada de 5) para a foto não é fácil. Gozações, piadas, timer da máquina que dispara antes do tempo, risada, risadas e risadas.
As lágrimas que insistem em sair quando precisamos contar a todos o quão bem eles nos fizeram por nos tratar com carinho, com atenção, com amor. O quão difícil estava sendo ter que voltar cada um para sua realidade, tanto nós quanto eles. A saudade que viria novamente, mas que (juramos) não duraria mais tanto tempo. Os planos de mudanças, de venda e compra de casas novas, promessas que sabemos serem difíceis de serem cumpridas, mas que são sonhos, e sonhos podem ser realizados.


Esses dias, fazendo um joguinho bobo de internet, tive uma surpresa um tanto quanto desagradável. Há alguns anos, calculando quando eu iria morrer em outro joguinho desses, já fiquei chocado ao saber que me davam apenas 36 anos de vida. Não passaria de 2021. Fiquei irritado, afinal todos que eu conhecia passariam dos 50.
Sempre brinquei com esse carma amargo. Até que, esses dias, resolvi tentar a sorte (?) novamente, em outro programa, e qual foi meu choque quando vi que minha nova data era 18 de novembro. Sim, agora, daqui a duas semanas. Apenas 15 dias, pra ser mais exato. Brinquei, na viagem, que se eu resistir a esse novo traço em meu destino, volto lá para novas visitas. E, no caso de eu não passar, darei um motivo para um novo reencontro.. hehehe.

18 de novembro. Ignorando ser um joguinho besta de computador, fiquei pensando nessa data. O que fazer em 15 dias? Tentar, de qualquer maneira e contra o relógio arrumar tudo que ficou desarrumado, tentar resolver todos os problemas que ficaram pendentes? Dizer tudo aquilo que não foi dito, quebrar todas as regras que nos foram impostas?

Em outros tempos eu faria isso. Sempre disse isso quando questionado sobre o que fazer se soubesse que tinha pouco tempo de vida.

Depois desses dias, contudo, vi que não precisamos sair correndo, afobados, tentando reverter aquilo que já foi escrito. O que aconteceu, de fato, já aconteceu, já está no passado. Resta o dia de hoje, o presente, e, no máximo os 15 dias que temos pela frente.
Depois de receber tanto carinho nos últimos dias, depois de sentir um amor tão puro vindo de outras pessoas, e de sentir prazer simplesmente em sentir o mesmo, sem qualquer obrigação ou julgamento, sinto-me bem, mesmo com o pesar de ter que voltar para casa, de ter que atualizar tudo que ficou desatualizado, de recolocar a vida em ordem de novo. A realidade, afinal, não tem graça nenhuma.

Não acredito em 18 de novembro. Claro que terei mais certeza dia 19, mas prefiro não acreditar, hehehe. Mas, se existem aqueles “sinais divinos pré-morte”, acho que tive o meu, sabendo que é possível sim, conseguir extrair do outro um sentimento bom, apenas por existir, sem precisar fazer por merecer, apenas por ser.
Me fez bem. Está me fazendo bem, e espero que continue assim. Tudo feliz, tudo tranqüilo, tudo calmo. Como é pra ser, acontecendo o que for pra acontecer.
Tudo a seu tempo. Mas, espero, antes de 18 de novembro.




♪ ouvino o silêncio, e com saudades do barulho e da correria de lá.