Reza a lenda (e é ótimo começar qualquer coisa com essa
expressão pq nos exime de qualquer empirismo ou prova irrefutável) que se saber
do futuro fosse algo bom as ciganas leriam a própria mão.
Sempre acreditei em tudo e nunca acreditei em nada, o que me
deixa na zona de conforto de fazer o papel de pregador ou de advogado do diabo
quando eu bem entender: não acredito em
previsões, mas já fui em cartomante. Acreditei em tudo que ela disse, e tudo que ela disse
não se realizou.
Mas quem é que tava errado? Eu por acreditar em algo que não
acredito ou a cigana por me enganar acreditando que eu acreditaria em tudo
aquilo?
Não vejo culpados.
Cada um de nós compõe a sua
história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz, já
dizia a música.
Mas ainda no quesito credulidades (e se essa palavra não
existe, deveria existir), preciso confessar que sempre tive um lado mãe Dinah.
Segundo meu anjo protetor (acho que é, ou numerologia ou
outra coisa do gênero), eu teria um dom quase mágico de estar sempre a frente,
de conseguir captar os sentimentos.
Claro que também dizia que eu tinha o poder de cura pelas
mãos, mas né, não sejamos literais.
O fato é que sou meio Nostradamus. Ou talvez um pouco mais
observador. Se pararmos pra pensar, prever o futuro não é tarefa difícil. Bem óbvia,
na verdade.
Não podemos nos deter nos elementos principais. Eles são a parte mais superficial de tudo. O que precisa
ser analisado são os detalhes. As coisinhas pequenas e insiginificantes. Essas
sim indicam o futuro, elas dizem o que vai acontecer.
Claro que o início é tentativa e erro. Eu mesmo já me
frustrei várias vezes acreditando nas minhas previsões que deram errado. Mas
então você vai ajustando, criando um método de análise cada vez mais perspicaz
e pimba! Você começa a acertar tudo.
Claro que ninguém vai acreditar em você. Às vezes as
previsões são absurdas. Coisas logicamente impossíveis.
Mas digo de fonte segura que funciona. E não há prazer maior
no mundo que depois de um tempo passado você pode dizer “lembra certa vez que
eu disse aquilo?”.
É algo como um sentimento solitário de orgulho e satisfação.
Afinal, ao pé da letra, não existem motivos pra se vangloriar. Aconteceria do
mesmo jeito, você não mudou nada, a pessoa não acreditou em você e também não
mudou nada, simplesmente aconteceu. E o sentimento de já sabia toma seu corpo
numa satisfação quase orgásmica, mesmo quando a previsão era algo ruim pra você
mesmo. No meio da merda toda, pelo menos um sentimento de satisfação solitário.
Mas por que esse prelúdio arrastado e sem sentido? Pra nada,
provavelmente, mas pra divagar sobre o poder que a gente tem de saber o final
da história, e mesmo contra, não mudá-lo. A falta de força pra lutar contra o
sentimento de satisfação, que apesar de
tão pequeno e egoísta, ser forte o suficiente pra nos estagnar na cadeira de
espectador do enredo óbvio.
Covardia, talvez. Não sei.
É uma pressão social de precisarmos saber exatamente o que acontecerá nos próximos dias, nos
próximos meses, nos próximos anos. Planejar estrategicamente cada passo.
Analisar cada variável. Taxas de risco. Planos B. Segunda, terceiras, quartas
opções que vão minando nossa cabeça como planilhas infinitas no Excel.
Tudo precisa estar no papel. Não há espaço pra falhas. Tudo
precisa ser seguido à risca, ou todo o tempo perdido no planejamento se torna,
de fato, perdido. E mudar o rumo da história se torna secundário na briga
com o tempo que pode ser perdido. “Imagina
mudar agora que perdi todo o tempo pra
organizar? Não. Prefiro continuar no esquema mesmo sabendo que vou quebrar a
cara no final. Depois começo outro plano, mas esse deixa como tá.”
Perdemos mais tempo nos preocupando com o tempo do que com o
que pode ser feito. Acaba sendo mais cômodo reclamar do tempo da viagem do que aproveitar
o tempo da viagem. Mas o destino não precisa ser mais importante que o
caminho pra alcançar. O objetivo não
precisa ser mais importante que o tempo perdido no planejamento.
Todo mundo devia ter tempo a perder. E todos tem, na
verdade. Todos deviam saber esperar. Parar. Se não podemos deixar nada ligado
por muito tempo pois corre o risco de queimar, pq a vida precisa ser toda regrada e em funcionamento contínuo? Por que essa busca incessante do produto final precisa ser
tão importante a ponto de não se aproveitar o
tempo que levamos pra alcançar?
Ah, se as pessoas soubessem quão bom é ter um tempo perdido.
A sensação maravilhosa de deixar o
objetivo em segundo plano. Ele virá, você sabe. Você já previu. Aproveite o
tempo que vai levar pra alcançar.
Sempre me pergunto se essas pessoas que seguem seus planos
sempre a risca e não perdem tempo com nada tem pressa em morrer. Por que né?
Não precisa ser vidente pra saber onde tudo isso vai dar.
Como os ciganos, aproveitar cada dia. Viver cada momento. Ignorar objetivos,
afinal o máximo de decisão a ser tomada é onde vou viver no próximo mês. E se eu errar o
destino? Foda-se. Não terei perdido tempo. Terei aproveitado o improvável. Mês
que vem tentamos diferente.
Conclusão? Acreditamos demais nas coisas que não
acreditamos, porque é mais cômodo. Desistimos daquilo que nos faz perder tempo,
porque a satisfação do acerto, a satisfação do
alcançar o objetivo e saber que você estava certo é mais importante que
o final feliz. O final desejado é muito mais importante. Mesmo que dê errado.
Só queria ser sábio como as ciganas e não saber do futuro.
Ser surpeendido. Aproveitar. Perder tempo.
Por hora, só sei que você está lendo isso, se
perguntando o que eu quis dizer com
tanta enrolação, reclamando que o final não é óbvio e a mensagem não é direta,
e tendo a certeza de que perdeu seu tempo. O final é óbvio. E você realmente perdeu tempo. Parabéns, pode colocar as cartas de volta no monte.