segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Maria do Carmo.


Estava lendo Zero Hora domingo e o caderno Donna falava sobre o centenário de Carmen Miranda. Li a história dela, linda, por sinal. Já conhecia de aulas de Cultura Brasileira, e lembro que tinha colocado em mente estudá-la melhor, longe dos conceitos de ícone, de personagem, e blá blá blá da teoria, e sim conhecer sua obra, além de tico tico, taí e balangandãs. Mas como a maioria das coisas que pensamos em fazer, o tempo passou e acabei não procurando mais nada sobre ela.
Notei que em todas as reportagens que falavam dela sempre era citado um documentário específico, sempre elogiado pela visão pela pessoa Carmem, e não pela personagem Carmem Miranda. Pela veracidade dos fatos, e não pelo deslumbre das cores e dos exageros.
Fiquei com aquilo na cabeça, e qual foi a minha surpresa, quando, passando pela infinidade semi-inútil de canais da Tv por assinatura (que só serve pra me irritar por ver que perdi todos os programas, ou que todos os que eu quero ver ocorrem ao mesmo tempo) e, quase sem perceber vejo que no Futura o tal documentário seria exibido em menos de um minuto.
Era Carmem Miranda – Banana is my business, da Helena Solberg.
Sabe quando existe a sensação de viver de fato a vida de uma pessoa?
Eu conhecia já praticamente toda a história da vida da Carmem. Ou da Maria do Carmo, como é bom frisar, e não a história de Carmem Miranda, a personagem ou ícone em que ela se transformou, deixando, em algum momento da vida, de ser humana pra ser uma personificação de um Brasil visto pelos estrangeiros.
A parte bonita, a parte dos filmes engraçados, caricatos, estava toda lá. Já vi alguns filmes dela, alguns bem divertidos, como aquele da loira e da morena (não lembro o nome agora) e o que ela fez com o Groucho Marx, surreal de tão esdrúxulo, em que ela enfim conseguiu fazer uma personagem que não fosse a Carmem de turbante na cabeça.
Mas além disso, foi legal ver a história de alguém que não podia, por exemplo, falar um bom inglês, mesmo sabendo, pois seu sotaque era uma marca registrada. Ou de nunca ter podido mostrar seus cabelos, já que o turbante já havia deixado de ser um acessório para se tornar parte ou toda sua personalidade. Se é que ela ainda existia.
Depois vem a parte trágica, do marido infernal que a matou aos poucos, junto com Hollywood (incrível saber que ela foi a primeira brasileira – é, afinal não nasceu aqui por detalhe – a ter sua marca na calçada da fama, e de ser a atriz mais bem paga de Hollywood), as drogas, a depressão, a volta trágica ao Brasil, povo egoísta e de falso patriotismo, sua decadência.
Acho que a cena que mais me chocou do documentário – e uno-me ao coro pra dizer que é um documentário excepcional – foi sua última aparição pública, no dia em que morreu, quando estava fazendo uma apresentação no show de Jimmy Durante, passou mal, e, caindo de joelhos na frente do apresentador, disse que não conseguia respirar. Despediu-se do público, graciosa, risonha e esvoaçante, como sempre, e saiu da porta do palco, como se saísse do mundo.
Pouco depois foi encontrado por sua governanta latina, que a viu jogada no chão, com um espelho nas mãos, que ela tentou retirar mas não conseguiu.
Parece que Carmem morrera tentando ver no espelho a Maria do Carmo, a pessoa por trás do personagem, mas não conseguiu. Como quando, numa reportagem sobre ela, filmaram-na “curtindo” seu hobby, a pintura, com os cabelos soltos, mais jovem, irreconhecível sem a indumentária, e, pintando um auto-retrato, via-se na tela o desenho de Carmem Miranda.
E depois, seu corpo volta ao Brasil, e seu caixão, coberto pela bandeira do país que praticamente a abandonou, é cortejado pelo povo que em outros tempos a vaiava no Cassino da Urca..

Fiquei novamente impressionado com sua história, e finalmente pude conhecê-la melhor. Pude ouvir outras músicas cantadas por ela, como os tangos e os sambas que nunca tinha ouvido, e apesar de já ter lido várias vezes que sua voz era horrível, acabei notando que ela foi, além e apesar de tudo, uma grande cantora.
O problema é que ela na verdade nunca apareceu, nunca se mostrou, vestiu uma fantasia, e acabou se tornando a própria fantasia.
E pensar que isso não é tão incomum. Cria-se uma máscara tão forte, tão rígida, que ela acaba aderindo tanto ao corpo que acaba por fazer parte dele. E o que era uma aparente faceta acaba se tornando o todo, e o que existia já não se encontra mais.
E assim as Marias Do Carmo morrem pra dar lugar às Carmens Miranda.. e o original se torna caricato, e o real da lugar ao imaginário, o comum ao interessante, o natural ao surreal.

Pois é.


Ah, hoje, dia 10, vai passar o documentário de novo às 18:20 recomendo, no canal Brasil, da Net.. e deve passar de novo em algum outro lugar enquanto durarem as comemorações.
E tem o documentário em partes no youtube, acabei de achar.. aqui tá o pedaço que me deixou mais impressionado.. (por volta dos 6 minutos...)


2 andaram comentando:

L. disse...

Coincidência. Vi o mesmo documentário domingo. Ela foi demais mesmo, pena que é lembrada só pela fantasia e pelas músicas batidas.
Dê uma olhada aqui:
http://quixotando.wordpress.com/tag/carmen-miranda/
tem os trechos de alguns filmes, inclusive o que você comentou..
Mas ainda assim prefiro ouvi-la cantando tango, ou falando rápido com seu sotaque "frenético".

Saudade, piá.

(ah, já sei o porquê de sua identificação com ela.. aquarianos.. ô, raça. rs)

Carla Arend disse...

"cria-se uma máscara tão forte, tão rígida, que ela acaba aderindo tanto ao corpo que acaba por fazer parte dele"...

que bonito, xoão.