
Sim, eu moro numa mala.
Ela é grande e preta. Mas na verdade a mala real é cinza e beeem maior. Mas essa ficou na última moradia, pq é difícil de carregar.
Morar em uma mala parece divertido se pensar em mochileiros, aventuras, adrenalina, novas culturas, etc, etc, etc.
Mas morar numa mala não é tão divertido assim. Eu moro numa mala desde o início de 2003, quando passei no vestibular. Ficou lá, paradinha, até 2007, ano em que eu deveria ter me formado se não tivesse largado o curso de publicidade no finalzinho. De lá pra cá, a mala continuou a mesma, mas as coisas que iam dentro dela foram aumentando. E a mala se mudou algumas vezes. Voltou pra família por um ano, foi morar em outro estado por meio, voltou pra família de novo, irritada e indignada por alguns dias, voltou pra faculdade por mais meio ano, voltou pra casa aliviada e formada por mais alguns meses, voltou a morar em outro estado, pensando em ficar lá de vez, mas, quase meio ano depois acabou voltando pra família por mais alguns meses, sem saber qual vai ser o próximo destino.
Dentro da mala, além das coisas habituais – roupas, muitas muitas mantas (cachecóis), uns 6 pares de all star, alguns cadarços, alguns livros, dois budas, um ganesha com a cabeça quebrada, um dragão pequeno de madeira e um grandão móbile de madeira, um cortador de cabelos, uma monografia, uma pastinha com um livro que falta revisar, alguns currículos desatualizados e outros papéis desnecessários – muitas coisas mais se escondem em todas aquelas aberturas. E isso deixa a mala pesada, cansada, com uma vontade descomunal de ficar parada em algum lugar. Eu arriscaria dizer que ela não gosta mais de ter rodinhas.
Mas eu consigo entender a mala, coitada. Ao contrário das outras colegas, ela não gosta de viajar. Incrível, considerando que todo mundo gosta. Mas ela não. Ela gosta de mudança geral. Ela gosta de quarto novo, de cidade nova, de pessoas novas, de novas histórias. Mas odeia quando precisa largar tudo pra ir pra outro lugar.
E o peso vai aumentando em cada uma das mudanças frustradas que ela faz. Amizades ela guardou muitas. E essas são as mais pesadas. O problema é que com essas andanças, algumas delas vão caindo no caminho, vão caindo dos vários compartimentos que ela tem. Outras não caem, mas ficam perdidas em todos aqueles espaços, e acabam sendo esquecidas. MS não é culpa dela, como muitos pensam. O problema é que, respeitando a lei da física, algumas coisas precisam sair pra outras entrar. Ces’t la vie. Não que ela sinta prazer nisso. Se pudesse, guardaria tudo, deixaria tudo muito bem organizado, mas como ela não pára por muito tempo em lugar algum, fica muito complicado. E ela fica triste, pq ela não consegue, ela se esforça. E todo mundo acha que ela é relapsa, que ela não liga, que ela é insensível. Mas ela não é.
Os amores são outro problema. Existe um compartimento secreto nela, com um zíper com uma fita vermelha amarrada. Nesse compartimento, que ninguém vê, ela guarda tudo aquilo que não precisa ser visto o tempo todo. Diferente dos amigos, que tem um espaço maior, esse é pequeno, e depois que as coisas vão pra lá elas devem ser ignoradas. Mas o zíper tem um problema, às vezes ele acaba abrindo sozinho, e tudo que não era pra ser visto o tempo todo acaba pulando pra fora, de supetão, sem tempo pra empurrar pra dentro. E, como fumaça, toma conta de tudo, e pra guardar é muito difícil. Tem coisas que não conseguem ficar fechadas, precisam de ar. Por isso, de tempos em tempos, esse compartimento precisa ser enxugado. E só as coisas realmente necessárias ficam ali. Aquelas que, de tanto tempo, ou de tão grandes, acabaram se fixando nela, fazendo parte dela, e dali não saem de jeito nenhum.
Mas a mala não ta sozinha não, ela tem uma companheira. A dona nécessaire. Dona nécessaire é o apelido que a mala dá pras ajudantes dela. Sabe como é, com tanta coisa pra carregar, ela precisava de um auxílio. Então acabou delegando a essas ajudantes de mesmo apelido a guarda das coisas mais recentes. Funciona como um funil. O que ficar guardando por um tempo x pelas ajudantes passa pra mala.
Mas claro que não é tão simples assim. As donas nécessaires não estão acostumadas com a vida da mala. Ninguém está. Elas querem correr o mundo, elas gostam de viajar. Elas ficam muito irritadas por conhecer pessoas que sabem que não vão encontrar logo. Elas ficam arrasadas. Elas se irritam com o fato de estar num lugar querendo estar em outro. Não conseguem se acostumar. Não como a dona mala, que já conhece o lado não divertido da vida. Talvez por isso elas não se dêem bem, e as ajudantes de mesmo apelido acabem durando bem pouco. E cada vez que vão embora deixam tristeza com a mala, que não conseguiu carregar tudo junto com ela. Mas ela precisou aceitar esse fardo – afinal disso ela entende – e sabe que pelo menos por enquanto vai ser assim. ela carrega o que pode, esperando, sempre, ficar num lugar só dela, com todos juntos dela. E podendo guardar todo mundo com espaço sobrando.
Não é fácil morar numa mala. Eu até queria morar um tempo com a Carla na Argentina, com a Miri na Austrália. Queria ficar um tempo em Barcelona, depois de tanta propaganda. Ficar um tempo no Nepal tb, meu sonho antigo. Ir pra Santa Maria, ficar um tempo com a Dani e com o povo do Macondo. Ir para as cidades de onde vieram novas pessoas interessantes, e as outras, pra onde vão mais algumas. Cansei de perder coisas no caminho. Eu e a mala.
Dentro da mala, além das coisas habituais – roupas, muitas muitas mantas (cachecóis), uns 6 pares de all star, alguns cadarços, alguns livros, dois budas, um ganesha com a cabeça quebrada, um dragão pequeno de madeira e um grandão móbile de madeira, um cortador de cabelos, uma monografia, uma pastinha com um livro que falta revisar, alguns currículos desatualizados e outros papéis desnecessários – muitas coisas mais se escondem em todas aquelas aberturas. E isso deixa a mala pesada, cansada, com uma vontade descomunal de ficar parada em algum lugar. Eu arriscaria dizer que ela não gosta mais de ter rodinhas.
Mas eu consigo entender a mala, coitada. Ao contrário das outras colegas, ela não gosta de viajar. Incrível, considerando que todo mundo gosta. Mas ela não. Ela gosta de mudança geral. Ela gosta de quarto novo, de cidade nova, de pessoas novas, de novas histórias. Mas odeia quando precisa largar tudo pra ir pra outro lugar.
E o peso vai aumentando em cada uma das mudanças frustradas que ela faz. Amizades ela guardou muitas. E essas são as mais pesadas. O problema é que com essas andanças, algumas delas vão caindo no caminho, vão caindo dos vários compartimentos que ela tem. Outras não caem, mas ficam perdidas em todos aqueles espaços, e acabam sendo esquecidas. MS não é culpa dela, como muitos pensam. O problema é que, respeitando a lei da física, algumas coisas precisam sair pra outras entrar. Ces’t la vie. Não que ela sinta prazer nisso. Se pudesse, guardaria tudo, deixaria tudo muito bem organizado, mas como ela não pára por muito tempo em lugar algum, fica muito complicado. E ela fica triste, pq ela não consegue, ela se esforça. E todo mundo acha que ela é relapsa, que ela não liga, que ela é insensível. Mas ela não é.
Os amores são outro problema. Existe um compartimento secreto nela, com um zíper com uma fita vermelha amarrada. Nesse compartimento, que ninguém vê, ela guarda tudo aquilo que não precisa ser visto o tempo todo. Diferente dos amigos, que tem um espaço maior, esse é pequeno, e depois que as coisas vão pra lá elas devem ser ignoradas. Mas o zíper tem um problema, às vezes ele acaba abrindo sozinho, e tudo que não era pra ser visto o tempo todo acaba pulando pra fora, de supetão, sem tempo pra empurrar pra dentro. E, como fumaça, toma conta de tudo, e pra guardar é muito difícil. Tem coisas que não conseguem ficar fechadas, precisam de ar. Por isso, de tempos em tempos, esse compartimento precisa ser enxugado. E só as coisas realmente necessárias ficam ali. Aquelas que, de tanto tempo, ou de tão grandes, acabaram se fixando nela, fazendo parte dela, e dali não saem de jeito nenhum.
Mas a mala não ta sozinha não, ela tem uma companheira. A dona nécessaire. Dona nécessaire é o apelido que a mala dá pras ajudantes dela. Sabe como é, com tanta coisa pra carregar, ela precisava de um auxílio. Então acabou delegando a essas ajudantes de mesmo apelido a guarda das coisas mais recentes. Funciona como um funil. O que ficar guardando por um tempo x pelas ajudantes passa pra mala.
Mas claro que não é tão simples assim. As donas nécessaires não estão acostumadas com a vida da mala. Ninguém está. Elas querem correr o mundo, elas gostam de viajar. Elas ficam muito irritadas por conhecer pessoas que sabem que não vão encontrar logo. Elas ficam arrasadas. Elas se irritam com o fato de estar num lugar querendo estar em outro. Não conseguem se acostumar. Não como a dona mala, que já conhece o lado não divertido da vida. Talvez por isso elas não se dêem bem, e as ajudantes de mesmo apelido acabem durando bem pouco. E cada vez que vão embora deixam tristeza com a mala, que não conseguiu carregar tudo junto com ela. Mas ela precisou aceitar esse fardo – afinal disso ela entende – e sabe que pelo menos por enquanto vai ser assim. ela carrega o que pode, esperando, sempre, ficar num lugar só dela, com todos juntos dela. E podendo guardar todo mundo com espaço sobrando.
Não é fácil morar numa mala. Eu até queria morar um tempo com a Carla na Argentina, com a Miri na Austrália. Queria ficar um tempo em Barcelona, depois de tanta propaganda. Ficar um tempo no Nepal tb, meu sonho antigo. Ir pra Santa Maria, ficar um tempo com a Dani e com o povo do Macondo. Ir para as cidades de onde vieram novas pessoas interessantes, e as outras, pra onde vão mais algumas. Cansei de perder coisas no caminho. Eu e a mala.
♪ Ouvindo o silêncio.
3 andaram comentando:
vem e traz a mala, trancamos ela no armário junto com as minhas duas - a cereja e a concreto. trancamos elas no armário e vivemos bem felizes fora dele!
:)
(não era pra ser piadinha infame)
vou convencê-la desde já.
(eu demorei alguns minutos pra "captar" a piada infame, hahahahahah)
Nossa...que crônica!
te vi no orkut da Pity e entrei no teu blog...ainda estou atônita, me vejo dentro de teu texto...Parabéns, tu escreve muito bem!
abraços Agatha Tomatis
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