quinta-feira, 27 de agosto de 2009

traça.


A crônica da Martha Medeiros da última semana (se não me engano, e como sou ruim com esse negócio de tempo devo estar enganado) da Zero Hora falava sobre a vontade que as pessoas tem de escrever, de serem escritores, de publicar livros, etc, etc, quando, na verdade, deviam estar preocupadas, e, acima disso, deveriam ter mais prazer com a leitura, e não com a escrita.
Claro que por trás disso existe uma crítica camufladamente sarcástica àqueles que (como eu) acham que podem ser escritores um dia, mesmo não tendo entrado na fila do dom da escrita no céu. E quantos são os escritores frustrados que vemos por aí, com seus contos não publicados, suas crônicas nunca lidas, seus blogs pouco visitados, e por aí vai..
Eu acho que eu discordo um pouco da Martha. Concordo que a maioria esmagadora desses pseudo-escritores (e aí eu me incluo) nunca lançarão nada na vida. Serão frustrados, ou terão outras profissões, ou terão a escrita como hobby, ou escreverão apenas para si, ou esquecerão e acharão outra habilidade para seguir em frente. Mas discordo um pouco da parte em que ela diz que eles deveriam trocar a vontade de escrever pela vontade de ler. Na verdade não sei se ela disse isso nesse sentido, de troca, de substituição, mas esse é o ponto que eu queria chegar.
Acho que quem gosta de escrever (e seja o resultado uma obra prima ou um fracasso literário) sente prazer em desenhar suas histórias e suas palavras pelo simples fato de fazê-lo, e não pretendendo a notoriedade da academia de letras. Eu pelo menos, me incluo nessa categoria. Gosto de escrever, mas não gosto que me leiam. Paradoxal, eu sei, mas é isso. Quando descubro que alguém fora do meu círculo mais restrito passa por aqui e lê o que eu escrevo, sinto um frio na espinha.
Mas se eu não gosto, por que então escolher uma mídia tão “particular” como a internet e não um papel guardado na gaveta? Talvez seja aquele sentimento mórbido de fazer escondido pretendendo que alguém veja, pra sentir o medo da crítica, a tensão da reprovação. Somos todos meio masoquistas, já dizia Marquês de Sade (que sempre que cito lembro de Smooth Operator (??? Piada infame)).
Mas, mudando de saco pra mala, o que mais gostei do texto da Martha (intimidade é tudo), foi a parte que fala do prazer da leitura. Não consigo entender como existem pessoas que torcem o nariz para um livro. Para alguém que, como eu, sente coceira nos dedos ao ver um livro dando sopa, sozinho, fechado, com um mundo inteiro a ser descoberto naquele monte de folhas desconhecidas, não gostar de ler é como não gostar de chocolate.
Lembro de uma vez, ao tentar incentivar a leitura no meu afilhado, dizer pra ele que o bom de ler era saber mais que os outros (metodologia avançada de ensino baseada no egocentrismo), era descobrir coisas que os outros não descobririam, a menos que também lessem aquilo que ele estivesse lendo. Lembro que logo depois de dizer isso pensei com meus botões que eu teria maneiras mais interessantes de desenvolver o espírito leitor dele, mas, pensando mais um pouco, acabei descobrindo que essa é, de certa maneira, a minha motivação.
Como é bom passar por uma estante de livros e saber a história que está dentro de cada um deles. Se sozinho já é bom, acompanhado por um não leitor é quase um prazer infantil de fazer uma traquinagem escondido. É como um segredo entre você e a história, um pacto entre você e as personagens.
Tenho ciúmes de livros, tanto quanto tenho de filmes. Tento indicar livros e filmes de acordo com o gosto de quem me pede a indicação. Fico irritado só de pensar em ouvir um comentário do tipo “não sei como você gostou dessa baboseira”. Não é o livro que era ruim. Você que não esteve a altura dele para entender. Porque os livros são assim. Eles se fazem a partir do leitor. Não é uma obra fechada. Cada um recria o que lê de acordo com seu repertório (_semiótica mode on). Você pode ler de um jeito, eu leio de outro. Pode-se ler com a leveza de uma Isabel Allende ou com a tensão de um Saramago. Com a sutileza profunda de um Garcia Marquez ou com a audácia do Ubaldo Ribeiro. E quão grande o prazer de estar com um livro nas mãos, entrar na história, viver por alguns minutos uma vida que não é sua, mergulhar num mundo totalmente diferente do seu. E quão triste e apreensivo é ver seu lado esquerdo aumentando, seu lado direito ficando mais leve, a numeração aumentando, o fim do livro chegando. E quando chega ao fim, o misto de prazer por ter conhecido e participado daquela história e a tristeza por ela ter acabado, ou a ilusão de continuar a partir dela a própria história, mudar o rumo das personagens, criar novos finais, ir além do simples ponto final.
Sou tão aficcionado pelos livros que quando acabo de ler, pra prolongar a sensação de prazer, leio tudo, de fichas catalográficas à informações editorias sobre o tamanho e o tipo de fonte e papel usado na impressão. Tudo é bom. O cheiro do livro novo, o cheiro das páginas gastas e amareladas, o toque do papel nos dedos.
Talvez seja exagero tudo isso, e bastaria ler para que o mundo fosse pelo menos um pouco mais interessante. Gosto não se discute, e sempre existirão aqueles que conseguem dormir nas primeiras páginas, ou que acham que os livros são mais úteis para substituírem pernas de mesas quebradas. Mas se alguém quer me deixar feliz, me tranque num quarto com uma pilha de bons livros e certamente eu deixarei esse mundo com muito prazer. Quase uma morte planejada. Ou uma troca de um mundo deveras real para outro apaixonadamente fantasioso.




pra não perder a piada.

1 andaram comentando:

Ine disse...

Ficando um tempo sem ler a gente esquece de tudo isso...
Vou começar um livro HOJE!!!