quinta-feira, 20 de agosto de 2009

vinde a mim


Lendo uma entrevista da Christiane Torloni na última Playboy (da ex-BBB Priscila e seu piercing famoso) – ótima entrevista por sinal – me chamou a atenção de uma frase do Nelson (não lembro se o Rodrigues ou o Gonçalves.. acho que do Rodrigues), na verdade um conselho: “crianças, envelheçam”.
Ia escrever aqui sobre a “inquietação” ou “trauma” ou “ojeriza” ou, simplesmente “problema” que tenho com esses seres que ainda usam fraldas. Não sei, não consigo nem nunca consegui gostar de crianças. Nunca soube o por quê também, afinal elas não fazem nenhum mal, são bonitinhas, simpáticas e blá blá blá. Só não gosto. Ou gosto, mas por um curto espaço de tempo até que elas comecem a me irritar.
Pensei mais um pouco, e uma conclusão possível e bem bem provável é que sinto uma grande inveja desses pequeninos seres. Apesar de parecer meio sem sentido sentir inveja de alguém que se baba, que não consegue se expressar sem gritar e que precisa ter as fraldas trocadas de tempos em tempos, há uma coisa que simplesmente se perde com o passar do tempo: o universo.
Não, não o universo universo, esse de planetas e tal. Mas o universo meio autista que todos criamos quando somos menores e com o tempo e com a necessidade do tempo real vai se esvaindo, esvaindo, até que não sobre nada.
A realidade talvez seja aquilo que mais caracteriza o amadurecimento do ser humano. E a realidade é sem graça comparada a todo o universo que se pode criar através de um mundo fantástico escrito por nossas pequenas cabeças pensantes.
Certa vez, na presença de uma pequena menina chamada Sophia (nome de princesa, como ela gosta, e nome sábio, como o mundo sabe), depois de ler todos os livros de histórias que tínhamos em casa (como a professora lê, segurando o livro aberto para o auditório), resolveu que era uma princesa. Brincou um pouco e, logo depois, dançava sozinha, já longe dos olhos dos “adultos”, com seu príncipe encantado. Para nós, apenas uma criança girando, meio sem sentido. Para ela, um lindo vestido de longa cauda e um belo príncipe encantado dançando com ela uma valsa num palácio cheio de cor.
Em outra situação, a mesma menina Sophia, brincando de passa-anel (aquela em que alguém adivinha com quem o anel ficou), surpreendeu a todos trocando os nomes de todas as pessoas que estavam na roda. No lugar de Helenas, Sílvias e Marias, o nome de suas coleguinhas da escola. Quem estava brincando com ela não eram aquelas mulheres, e sim suas amiguinhas. Não importava pra ela, naquele momento, quem eram os “seres físicos” que participavam da brincadeira. Importava é que ela brincava com quem ela queria brincar, e naquele momento eram suas amigas. Poderiam ser dragões, princesas ou bruxas malvadas. Bastava imaginar, e toda a realidade deixava de existir.
Com o tempo, fica difícil deixar de ver a realidade. Contar carneirinhos deu lugar a calmantes. Contar até 10 não deixa ninguém mais tranqüilo. Imaginar um oásis perfeito não basta em meio a buzinas e xingamentos de trânsito. A fantasia morre com o tempo, e com ela todo o encantamento de sonhar acordado. E, em muitos casos, o de sonhar dormindo.
Pensando nisso, volto um pouco ao que escrevi ontem aqui, sobre o paradoxo do sentimento de repulsa. Concluo que só não gosto de crianças porque meu complexo de Peter Pan sente inveja da liberdade de pensamentos das crianças. Tenho inveja de não poder criar um mundo perfeito simplesmente usando a imaginação. Tenho inveja de dar de cara com a realidade cada vez que abro os olhos. Tenho inveja de sonhar cada vez menos, e muitas vezes acordar e nem lembrar do que sonhei. E mais, de saber, por já ter amadurecido um pouco, que nem todos os sonhos se tornam realidade.
Por isso talvez eu peça licença ao Nelson do início do texto. Contradizendo tudo que já pensei, não diria mais “crianças, envelheçam”. Mas “crianças, demorem a envelhecer”.





Pra lembrar que não sou o único com complexo de Peter Pan.

4 andaram comentando:

Danielle disse...

de onde vem tanta inspiração?

heheheeh.

beijo.

joãopaulo (JP) disse...

heheheheh.. sabe que às vezes até do msn.. :p

Ramón Silveira disse...

Parabéns pelo blog. Muito bom. Abraço

Leonardo I disse...

Muito bom o texto. O que seria a ilusão, a imaginação e as diversas criações das quais a nossa mente é capaz, se não realidades particulares? Sonho é como os céticos chamam a realidade que não são capazes de enxergar.

Se quiser prestigiar o meu blog também:
http://theboywhostolethestars.blogspot.com/2009/05/o-ladrao-de-estrelas.html

Abraço!