
Da cama da Mel – e dela – veio uma frase que eu já havia lembrado algumas vezes na vida, discutido algumas outras, concordado e discordado tantas outras vezes. Assim, bem redundante e inconclusivo, como de praxe.
Não consigo lembrar se essa frase já foi dita por alguém de certa fama, e provavelmente já (todas as idéias já foram tidas, já dizia a teoria): o silêncio diz mais que palavras ou, ainda, quando o silêncio não é constrangedor é sinal de intimidade.
A intimidade de ficar, um perante o outro, em silêncio, e, pelos outros sentidos todos dizer aquilo que em palavras perderia seu sentido, aquilo que num nível “extra-sensorial” diz muito mais que os sons que nos chegam aos ouvidos.
Tarefa fácil o som, inclusive. Tradutor infalível desde sempre de todos os sentimentos que necessitam de expressão, de exteriorização. Mas sempre existe aquele momento, aquilo ou aquela coisa que as palavras não traduzem, ou que se aproximam do sentido real mas não são bastantes, não são completos, nem completam.
Palavras soltas, palavras ao vento. Dizem que palavras são como flechas: depois de atiradas, não voltam mais. O que foi ouvido fica. Talvez por isso (mesmo sem até hoje ter feito a relação) eu nunca acreditei verdadeiramente em perdão.
O que significa, taxativamente, desculpar alguém de alguma coisa? Existe a capacidade mágica na palavra desculpa que faz, instantaneamente, aquilo que foi ouvido ou aquilo que nos foi feito se apagar como lápis num papel? Tudo se transforma, já dizia o pensador. Nada é simplesmente apagado.
Perdão parece mais um aval de que será, no futuro, possível conviver com o ouvido ou o feito da melhor maneira possível, engavetando a informação recebida, sufocando as palavras ouvidas. Mas elas permanecem lá. E é só pensar um pouco para que tudo volte numa rajada de vento que bate em nossa cara.
Relevar. Vai ver esse é o segredo.
Mas, voltando ao silêncio. Parece que, nos que diz respeito a ele, tudo passa de um patamar tão humanamente baixo, simples, e passa para algo mais profundo, mais interior, mais sentimental. Falar com o silêncio atinge mais rápido o coração, devem dizer os poetas. E, tirando a pieguice, é bem verdadeiro, contudo.
Palavras não ditas não precisam ser perdoadas. Até porque naquilo que é dito com o silêncio existe aquilo que os teóricos de comunicação chamariam de processo comunicacional igualitário: a partir do momento que o que é dito precisa ser totalmente “decodificado” por quem recebe a mensagem, no caso do silêncio (que até o que eu saiba não possui quaisquer codificações conhecidas ou confiáveis), a culpa do que foi dito é metade de quem fica em silêncio para dizer e metade (ou mais, na maioria das vezes) para quem fica em silêncio para receber a mensagem. É o teste infalível de ouvir aquilo que se quer ouvir, sem precisar de subterfúgios para ouvir da boca do outro. É bastante, preenche, completa.
Um antigo professor de comunicação (Ph.D respeitadíssimo, diga-se de passagem) dizia que o futuro da comunicação era, sim, algo como a telepatia. Logo as palavras e sons seriam desnecessários. Tudo estaria num nível muito superior de interpretação e envio de mensagens.
Ok. Dito, debatido, concordado. Tirando minha falta de imaginação para ver um futuro sem som e sem vozes, tudo que disse aqui em cima fecha exatamente com o que eu penso.
Mas, como bom humano inferior que sou, não posso deixar passar o prazer em ouvir algo bom ao pé do ouvido, baixinho, quase num sussurro imperceptível. Aquele som da voz na nuca que faz arrepiar (isso parece letra de pagode, mas é fato). Sei que um abraço muitas vezes já resolve tudo, mas é bom ouvir aquelas palavras amigas, ouvir aquilo que você quer ouvir, que você praticamente implora para ouvir nas entrelinhas. A retórica perfeita, com todas as suas réplicas e tréplicas. Ouvir a aceitação de seu perdão, mesmo sabendo que aquilo nunca será esquecido, mas simplesmente pelo fato de se sentir bem sabendo que o outro entendeu suas razões. E vice versa, quando você se sente bem em confortar o outro e entender seu lado.
Sei o valor do silêncio. Aprecio. Gosto. Mas gosto também das palavras, e principalmente daqueles que precisam despejar as suas incessantemente. Porque, quem diria, narizes falam também. E falam demais. E mesmo assim são apaixonantes. E dão saudade.
E “the rest is silence”..
♪ ouvindo Paul Simon e Bob Dylan – The sound of Silence.
Não consigo lembrar se essa frase já foi dita por alguém de certa fama, e provavelmente já (todas as idéias já foram tidas, já dizia a teoria): o silêncio diz mais que palavras ou, ainda, quando o silêncio não é constrangedor é sinal de intimidade.
A intimidade de ficar, um perante o outro, em silêncio, e, pelos outros sentidos todos dizer aquilo que em palavras perderia seu sentido, aquilo que num nível “extra-sensorial” diz muito mais que os sons que nos chegam aos ouvidos.
Tarefa fácil o som, inclusive. Tradutor infalível desde sempre de todos os sentimentos que necessitam de expressão, de exteriorização. Mas sempre existe aquele momento, aquilo ou aquela coisa que as palavras não traduzem, ou que se aproximam do sentido real mas não são bastantes, não são completos, nem completam.
Palavras soltas, palavras ao vento. Dizem que palavras são como flechas: depois de atiradas, não voltam mais. O que foi ouvido fica. Talvez por isso (mesmo sem até hoje ter feito a relação) eu nunca acreditei verdadeiramente em perdão.
O que significa, taxativamente, desculpar alguém de alguma coisa? Existe a capacidade mágica na palavra desculpa que faz, instantaneamente, aquilo que foi ouvido ou aquilo que nos foi feito se apagar como lápis num papel? Tudo se transforma, já dizia o pensador. Nada é simplesmente apagado.
Perdão parece mais um aval de que será, no futuro, possível conviver com o ouvido ou o feito da melhor maneira possível, engavetando a informação recebida, sufocando as palavras ouvidas. Mas elas permanecem lá. E é só pensar um pouco para que tudo volte numa rajada de vento que bate em nossa cara.
Relevar. Vai ver esse é o segredo.
Mas, voltando ao silêncio. Parece que, nos que diz respeito a ele, tudo passa de um patamar tão humanamente baixo, simples, e passa para algo mais profundo, mais interior, mais sentimental. Falar com o silêncio atinge mais rápido o coração, devem dizer os poetas. E, tirando a pieguice, é bem verdadeiro, contudo.
Palavras não ditas não precisam ser perdoadas. Até porque naquilo que é dito com o silêncio existe aquilo que os teóricos de comunicação chamariam de processo comunicacional igualitário: a partir do momento que o que é dito precisa ser totalmente “decodificado” por quem recebe a mensagem, no caso do silêncio (que até o que eu saiba não possui quaisquer codificações conhecidas ou confiáveis), a culpa do que foi dito é metade de quem fica em silêncio para dizer e metade (ou mais, na maioria das vezes) para quem fica em silêncio para receber a mensagem. É o teste infalível de ouvir aquilo que se quer ouvir, sem precisar de subterfúgios para ouvir da boca do outro. É bastante, preenche, completa.
Um antigo professor de comunicação (Ph.D respeitadíssimo, diga-se de passagem) dizia que o futuro da comunicação era, sim, algo como a telepatia. Logo as palavras e sons seriam desnecessários. Tudo estaria num nível muito superior de interpretação e envio de mensagens.
Ok. Dito, debatido, concordado. Tirando minha falta de imaginação para ver um futuro sem som e sem vozes, tudo que disse aqui em cima fecha exatamente com o que eu penso.
Mas, como bom humano inferior que sou, não posso deixar passar o prazer em ouvir algo bom ao pé do ouvido, baixinho, quase num sussurro imperceptível. Aquele som da voz na nuca que faz arrepiar (isso parece letra de pagode, mas é fato). Sei que um abraço muitas vezes já resolve tudo, mas é bom ouvir aquelas palavras amigas, ouvir aquilo que você quer ouvir, que você praticamente implora para ouvir nas entrelinhas. A retórica perfeita, com todas as suas réplicas e tréplicas. Ouvir a aceitação de seu perdão, mesmo sabendo que aquilo nunca será esquecido, mas simplesmente pelo fato de se sentir bem sabendo que o outro entendeu suas razões. E vice versa, quando você se sente bem em confortar o outro e entender seu lado.
Sei o valor do silêncio. Aprecio. Gosto. Mas gosto também das palavras, e principalmente daqueles que precisam despejar as suas incessantemente. Porque, quem diria, narizes falam também. E falam demais. E mesmo assim são apaixonantes. E dão saudade.
E “the rest is silence”..
♪ ouvindo Paul Simon e Bob Dylan – The sound of Silence.
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