Eu tenho medo de coisas estranhas confesso. A maioria são coisas reais, palpáveis, vezes perigosas, como panelas de pressão, aranhas, elevadores, pontes, rodas-gigantes, soluços ou cobertores pesados. Outras mais subjetivas, e talvez mais comuns, como a perda de alguém, a tristeza, a dor do mundo.
Mas a que mais me confunde, e talvez por isso tire de mim uma tensão quase sexual, um prazer doloroso, um sentimento paradoxal de angústia a alívio, são as coisas estranhas.
Sei que é difícil expressar o que quero dizer. Estranho para mim, comum para você. Mas falo daquela coisa meio sombria, angustiante (ô redundância), aquilo que amedronta mesmo, e ao mesmo tempo não deixa margem para qualquer distração. Quase um ato hipnótico, que nos leva para dentro do “algo”, nos faz querer ser parte dele, participar daquilo, mesmo que (via de mão dupla) o sentimento de querer fugir correndo pareça ser mais forte.
No meu caso, isso deve ser herança do medo (quase pânico) de palhaços. Confesso que muitas vezes eu ri deles, mesmo querendo sair correndo e me jogar no colo de minha mãe. Inclusive toda e qualquer atmosfera circense já me causa um desconforto. Pra mim é algo sepulcral, sobrenatural. Como os ciganos.
Mas me atraem. E me atraem muito. Sade explicaria melhor a sensação de querer estar próximo daquilo que nos amedronta, sentir prazer com aquilo que aparentemente nos causa dor e tristeza.
Parando para analisar as músicas que tenho no playlist do meu computador (e, aposto, poucas alcançam tamanho grau de estranheza e falta de padrão), notei que algumas delas expressavam exatamente tal sentimento.
Enya sempre foi meu maior exemplo. Eu tenho medo das músicas dela. Acho que ela tem uma linguagem angelical, algo meio demoníaco naqueles badauês que ela canta, e, mesmo sem ninguém entender o "céltico" dela, todos insistem em ouvi-la nos momentos mais significativos.. de formaturas a casamentos. Caribbean Blue, por exemplo, ouvia criança, no rádio, enquanto brincava pela casa. Sempre me fascinou, e, ao mesmo tempo, sempre me amedrontou. Quando achei, em fita, depois de anos sem escutá-la, posso correr o rsico de dizer que meus olhos encheram-se de lágrimas, tamanha a euforia de poder escutá-la novamente. Anos depois, quando vi o clipe, tive a sensação de ver em imagens aquilo que sentia quando a ouvia. O medo nunca passou.
Outra que já virou moda cult/alternativa e da qual muita já fui muito fã (até vê-la vestida de cisne na entrega do Oscar) é a Björk. Talvez achasse deveras estranhas por ter surgido do nada e sei lá de onde no meu computador. Até hoje não sei de onde veio Human Behavior, mas assim que escutei a sensação que tinha quando ouvia Enya voltou. Não sei, esse povo nascido na Islândia, como a Bjork, ou ligada aos celtas, como a Enya, deve carregar algo misterioso e macabro de seus antepassados.
Mas não pára por aí.. Pra ser mais atual (coisa que no meu caso é extremamente difícil), posso citar Mates of State também.. Num grau bem abaixo de estranheza e fascínio que as moças aí de cima, mas que me atraíram também pelo não-comum.
Mas existe alguém além.
Existe alguém bem superior a tudo isso.
E essa me foi tomada de susto. Conhecia a música, mas não conhecia a intérprete. A voz doce, vezes forte, aparentemente tranqüila (padrão em minhas estranhezas musicais) escondia uma mulher que poderia participar de qualquer filme de terror, daqueles que ficamos noites com medo de dormir temendo ter pesadelos com ela embaixo da cama, esperando para dar o bote.
Com medo de ouvir sua gargalhada embaixo das escadas. Mais assustadora que Freddie Krueger e as noites de insônia infantis.
No more I Love you’s, ela diz.
And people are being real crazy. But we will only come And you know what mommy? Everybody was being real crazy. The monsters are crazy. There are monsters outside.
Eu tenho medo da Annie Lennox (aqui tem clipe). Mais que de elevadores, mais do que panelas de pressão, soluções ou aranhas.
Mas eu queria encostar nela, ver se ela é real. Queria viver no mundo do clipe (não preciso ser uma das bailarinas.. falo da atmosfera). Aquela coisa mágica, obscura.
Mas eu não queria ficar perto dela. Posso ficar num cantinho, de voyer.
Porque eu tenho muito medo da Annie Lennox.
Sade explica.
♪ ouvindo todas elas juntas. muito medo
1 andaram comentando:
Eu li todo o post, entretanto como eu sou mais 'cagão' que você... só o fato de ter avisado que te causou medo fez com que eu perdesse o interesse. hehe
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