domingo, 13 de dezembro de 2009

estranho.

Hello stranger, ela diz, lindamente no filme..
Strange, estranho.
Estranhez (se é que essa palavra existe) é, ironicamente, e por si, um sentimento deveras estranho mesmo.
Estranho, por exemplo, rever o filme de Amelie, que outrora já amei, antigamente odiei, e assim continuo, nesse “paradoxo sentimental”. Pois ora tenho vontade de matá-la, ora de amá-la. Afinal, ela fez mal a seu pai. Por tempos, deixou-o confuso, desorientado. Triste. Sim, com uma intenção boa no final. Mas de boas intenções, o inferno está cheio, então por que gostar tanto dela assim?
São pequenezas, coisas miúdas, atitudes por vezes infantis, por vezes sem pensar. Mas atitudes são atitudes, e atitudes geram outras atitudes em resposta. Amelie teve sorte. Suas traquinagens geraram coisas boas, como ela esperava. Mas Amelie é uma menina de sorte, Amelie não teme, Amelie não erra. Amelie é uma estranha Poliana.
Mas tantas coisas estranhas e sem explicação existem há tanto tempo que acho estranho não terem ainda descoberto suas razões. Afinal, por que as coisas estranhas existem?
Pois me é muito estranho saber que as pessoas trabalham a vida toda, guardam dinheiro a vida toda e, de repente morrem. Estranho a maioria não pensar que deveriam guardar um tempo pra gastar o dinheiro guardado. Estranho mesmo é nem saber quanto tempo teremos.
Por que é estranho chorarmos quando estamos excessivamente felizes. A Biologia até pode tentar explicar, mas que é estranho, ah, isso é. Assim como estar triste, muito triste, e não conseguir chorar. Mas ora, se você está triste, chora. Mas não sai. Estranho. E não deveria ser assim.
Por que é estranho você ter um passarinho ou qualquer outro bichinho de estimação, tratá-lo bem, cuidar para que não fuja, afinal você sabe que se fugir ele ficará mal, poderá sofrer, dar comida a ele, afeto, carinho, atenção. E assim, numa oportunidade qualquer, ele foge. E não volta mais. Estranho. Se você fez tudo para ele o tempo todo, por que fugir? E o pior, e mais estranho: ele sabe que vai acabar morrendo, se arrependendo, você avisou. Mas, mesmo assim ele vai. Vai entender..
Arrepender-se é algo muito estranho. Se você fez, e sabe que está errado, que direito tem de se arrepender? Se arrependimento fosse um ticket de volta ao passado, até se entenderia, mas, ora, de que adianta? E todos, mesmo assim, se arrependem. Estranheza pouca é bobagem.
Então o mundo vai acabar, todo mundo sabe disso, a água ta no fim, o ar ta poluído, o apocalipse ta ali. E ninguém faz nada. Estranho esse sentimento comum de que não vai acontecer com você. Mas, de alguma maneira, sempre acontece com você, já notou? Talvez porque só pensamos nisso quando, de fato, acontece com a gente, então fizemos questão de dizer: “é, eu achei que nunca ia acontecer comigo”.. Mas então não deixe acontecer, é simples. Volta a questão do arrependimento, volta à questão do passarinho na gaiola. Volta a raiva da Amelie que não se arrependeu, porque, sortuda, conseguiu que tudo desse certo.
Estranho ver um mendigo na rua e ignorá-lo. Ver uma criança pedindo esmola e, sabendo de que nada adianta, dar um trocado. Estranho o sentimento de incapacidade com coisas que estão acontecendo e você não pode fazer nada, absolutamente nada, mesmo que, em teoria, cada um poderia fazer a sua parte. Estranho, às vezes, não termos essa alternativa no caderninho de respostas. Ou seria no das perguntas?
Estranho perguntas não terem resposta. Estranho você querer fazer alguma coisa, e, por vezes, fazer, sabendo que não é certo, mas você faz igual, pois conta com as tais das variáveis incontroláveis. Ou, justamente, porque não conta. As coisas acontecem, e o que deveria ter sido bom, deu errado, e você acha que fez certo, porque acreditava, e talvez continue acreditando. Estranha essa teimosia em continuar acreditando mesmo nas coisas que acabaram. Em imaginar que depois dos créditos dos filmes, a história continua. E o final triste pode virar feliz. E o final feliz pode dar com a cara na realidade.
Estranho pensar que existe filme após os créditos.
Estranho pensar nas coisas estranhas.
Estranho ver sua gata ficar perto de você, e acreditar que o misticismo que existe em cima dos gatos pode ser verdadeiro. Estranha a sensação de descoberta infeliz, afinal, seria mais divertido ter aprendido com os livros.
Estranho comer Nescau ate arder a garganta, afinal, se arde, é porque faz mal. Estranho comer como um condenado à prisão e depois reclamar que engordou. Estranho ter que pensar antes de fazer, e mesmo assim não pensar. Estranho pensar demais, quando nem há mais o que pensar.
Estranho ligar sabendo que não vai ser atendido. (de fato, só de imaginar que numa ligação a voz passa por um fio e chega do outro lado exatamente como você queria já basta de estranheza). Estranho tentar uma segunda vez, quando tudo quer dizer, e diz, que já não dá mais. Mais estranho ainda persistir. Mais estranho ainda é não querer desistir. Mais estranho ainda é amar, e querer, e insistir. E errar, e tentar, e lutar. Estranho ainda notar que está sendo em vão. Estranho ter que guardar sentimento, estranho não poder compartilhar. Estranho ter que voltar a uma vida normal quando parte de ti se acostumou com uma outra vida.
Estranho ter que sair na rua calçado. Estranho ter que arrumar o cabelo sempre antes de sair, se todos os fatores climáticos o estragarão. Estranho fazer a mesma coisa todos os dias pensando que o resultado ser diferente.
Estranho que pensar que a estranheza está tão próxima da burrice. Mas pessoas burras não são estranhas. Pessoas burras não insistem, pessoas burras não fantasiam, pessoas burras. Mas atitudes estranhas são tão burras, do mesmo jeito. Estranho.
Esdrúxulo. Diferente. Bizarro. Estranho.
A Lady Gaga é estranha. Hoje eu chorei ouvindo Lady Gaga. Isso é mais estranho, mais ainda pelo fato de, naquele momento específico, eu não estar pensando em nada. Estranho ver O Crepúsculo de madrugada, e entender que a história é bonitinha. Estranheza mais vergonha dá em quê?

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