Estranho como ficamos tão infelizes quando algo não dá certo. Culpamos tudo e todo o possível. Culpamos os outros, culpamos a situação, culpamos nós mesmos. Culpa, culpa, culpa. Alguém precisa arcar com as consequências. Alguém precisa admitir o erro.
Mas e quando não tem erro? Após um breve momento depois da “coisa errada”é difícil enxergar, mas nem sempre houve um erro de fato. Muitas vezes, foi coisa do acaso. Não era pra acontecer. Pronto.
Mania nossa de ficar perseguindo motivações, criando hipóteses, calculando as variáveis, mas opa! Nem tudo está em nossas mão.
Alguns dizem que o acaso é o dedo de deus. Alguns chamam de destino. Eu prefiro chamar de acaso mesmo. Ou das tais variáveis incontroláveis.
É inerente do ser humano o problema em enfrentar uma negação. Não estamos preparados para ouvir um não. Não estamos preparados para aceitar que não precisamos necessariamente agradar todo mundo o tempo inteiro. Não estamos preparados a aceitar que ser ou estar egoísta é bom também.
Se você não faz parte do grupo de amigos que gostaria, talvez seja porque realmente você não se encaixa naquele grupo. Se você não conseguiu a vaga de emprego que almejava talvez tenha sido porque você realmente não se encaixava no perfil preterido pela empresa. Se você levou um fora de quem você julgava ser o amor de sua vida, talvez tenha sido porque ele de fato não era o amor da sua vida. O problema, ou o erro, não é seu. Foi o acaso, o destino. E foi melhor assim.
Claro que existe uma linha bastante tênue entre a aceitação dos fatos e o conformismo. Mas são coisas diferentes, estão em níveis distintos: você aceita aquilo que de fato você entendeu que devia ser assim, independente do que você julga ser melhor. Se conformar com algo é aceitar que não dará certo e não será como você queria e deixar de lutar, antes da coisa de fato acontecer.
Existe um pequeno espaço de tempo entre ambos, que permite a tentativa. Tentar sempre é válido. Podemos tentar desdobrar o acaso. Talvez, por ironia, até o acaso tenha sido um acaso.
Mas então aparece outro limite que teimamos em insisitir de bater na mesma tecla: o hábito.
Comecei a grudar onde consegui adesivos de nicotina para parar de fumar. Observação válida: eu gosto de fumar, eu tenho prazer em fumar. Perdi toda a necessidade do vício. Mas não perdi o hábito. Resultado: fumo sem ter vontade, apenas pelo ato em si.
O hábito, ou o costume, nos prende a pensamentos pre-estabelecidos, não deixa sair do lugar. Sabemos o que queremos, sabemos o certo e o errado, sabemos do acaso, mas não conseguimos nos desprender da força do hábito.
Do hábito de tentar fazer a mesma coisa esperando um resultado diferente. Por que, se sabemos que sempre teremos o mesmo resultado? As coisas não vão mudar, por mais que sonhemos ou acreditemos que ainda há uma luz no fim do túnel. A metáfora é bonitinha, mas no final do túnel a luz se apaga também.
Não adianta parar a vida esperando uma vaga de emprego que você não conseguiu e acha que por um ato divino quem lhe surrupiou o emprego vai morrer num ataque fulminante. Não adianta parar sua vida por um amor que te deu um pé na bunda e você julga que uma hora vai cair em si e ver que você era o melhor pra ele.
Hello, hello, baby, isso não vai acontecer. O dedo do acaso já bateu aí. Não era pra acontecer, aceite os fatos, bola pra frente.
Adoro um exemplo muito idiota disso. O mesmo cara (e nunca lembrarei o nome aqui) que escreveu Ronda (de noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar, lá lá lá...) escreveu Sacode a Poeira (acho que o nome não é esse, mas enfim.. levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima..). Ou seja, num dia estamos lá embaixo, noutro lá em cima.. É aceitar o acaso, perder o hábito. (inclusive o carinha teve que aceitar que na época os direitos autorais eram toscos e mesmo escrevendo letras tão conhecidas ele acabou virando um jornalista bem pobrinho...).
Enfim... (pra não perder o hábito): sempre existe aquele momento de parar de culpar tudo e todos, e aceitar os fatos. Perder o costume, seguir em frente. Não se conformar com tudo que dá errado. Mas aceitar que as coisas podem e devem dar errado de vez em quando, ces`t la vie.
Persistir no erro procurando um erro, definitavemente, é burrice.
É força do hábito.
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