O passado não é mais, o futuro ainda não é, o esquecimento e a improvisação são fatos naturais. O que é mais improvisado, e cada vez, do que a primavera? E o que é esquecido mais depressa? A própria repetição, tão impressionante, não passa de um logro: é por se esquecerem que as estações se repetem, e justamente por causa do que torna a natureza sempre nova que ela só inova raramente. Toda invenção verdadeira, toda criação verdadeira supõe a memória.
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Porque o que dura ou se repete só ocorre mudando, e nada começa que não deve acabar. A inconstância é a regra. O esquecimento é a regra. O real, de instante em instante, é sempre novo, e essa novidade cabal, essa novidade perene é o mundo.
A natureza é a grande esquecidiça, e é nisso também que ela é material. A matéria é o próprio esquecimento - só há memória do espírito. Portanto, o esquecimento é que terá a última palavra, como teve a primeira, como não pára de ter.
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Pensar é lembrar-se de seus pensamentos; querer é lembrar-se de se querer.
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A preocupação, que é a memória do futuro, faz-se lembrar suficientemente a nós.
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O passado é mais desprovido. O futuro nos inquieta, o futuro nos atormenta. Seu nada constitui sua força. Do passado, ao contrário, parece que não temos mais nada a temer, mais nada a esperar, e isso sem dúvida não é totalmente errado. Epicuro fez disso uma sabedoria: na tempestade do tempo, o porto profundo da memória... Mas o esquecimento é um porto mais seguro. Se os neurônios sofrem de reminiscências, como dizia Freud, a sanidade psíquica bem que deve, em alguma coisa, alimentar-se de esquecimento. "Deus preserve o homem de esquecer de esquecer!", escreve o poeta, e Nietzsche também enxergou muito bem onde estavam a vida e a felicidade. "É possível viver quase sem lembrança, e viver feliz, como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer". Portanto, anotemos. Mas a vida é o objetivo? A felicidade é o objetivo? Pelo menos essa vida e essa felicidade? Que restaria do espírito? Que restaria da humanidade?
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Do passado, façamos tábua rasa. Toda a dignidade do homem está no pensamento, toda a dignidade do pensamento está na memória. Pensamento esquecidiço talvez seja pensamento, mas sem espírito. Desejo esquecidiço é desejo, sem dúvida, mas sem vontade, sem coração, sem alma. A ciência e o animal dão mais ou menos uma idéia disso - embora isso não seja verdade para todos os animais (alguns são fiéis, dizem) nem, talvez, para todas as ciências. Pouco importa . O homem só é espírito pela memória, só é humano pela fidelidade. Guarde-se, homem, de se esquecer de se lembrar!
O espírito fiel é o próprio espírito.
(in: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, cap. 2 - Fidelidade)
Por que uma hora é preciso esquecer.
Por que uma hora será a hora de deixar de lembrar. Ou lembrar de esquecer.
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