Não ia comentar até porque, em princípio, não me dizia respeito. Mas internet é lugar livre onde todos acham que o direito de expressão é dever, então me expressarei.
Vi trocentos tweets falando mal da campanha da feira do livro de Santa Maria desse ano. Demorei um pouco, mas como todos, resolvi dar uma espiada no material.
Vi os cartazes feitos pelos alunos da FACOS Agência (ô saudade). Não sei quais são os outros materiais da campanha, então só analisei os cartazes mesmo.
Primeira impressão? Lindos cartazes. Bonitos mesmo. Comparados aos trabalhos da minha época, um grande salto.
Não achei nada de mais, visto a quantidade de críticas. Li, achei engraçado, coloquei alguns defeitos (mal de publicitário) mas achei bom.
Então tive o que todos devem ter tido, aquele segundo de reavaliação.
O que em primeira vista é um bom argumento acaba tendo algo exclusivo, arcaico. Exagerado, eu diria, até porque dizer mais que isso é procurar pelo em ovo.
Entendo a campanha. Achei criativa, sim. Aqueles que criticaram a criatividade deviam procurar no dicionário o conceito da palavra. Mas não discordo da massa crítica. Achei um terreno arriscado, achei um uso equivocado dos termos. Ignorância é uma palavra forte, mas nem por isso desprovida de significado. Significado que devia ser comum, aliás.
Ok, achei que era só isso. Mas as críticas cresceram exponencialmente, até virar notícia de verdade.
Pensei cá com meus botões… opa! Alguma coisa está errada.
Lembro de alguns anos (não preciso revelar que também sou arcaico) quando estávamos na agência e a briga nao era por quem conseguiria criar a campanha, e sim a briga por achar alguém que quisesse criá-la.
A Feira estava esquecida. A cultura estava esquecida. Onde estava a massa crítica de hoje naquele momento?
Campanhas fracas. Feias. Não atrativas. Era isso que tínhamos até entao. Bons tempos da campanha premiada da Ju. Boa inovação dos móbiles da Carla.
Nunca, até entao, tinha-se comentado tanto sobre a Feira, ou a campanha da Feira. Por isso me arrisco a um pitaco: Parabéns, alunos da FACOS. Vocês conseguiram o que há anos todos que já se envolveram com a Feira procuravam: atenção.
Não lembro de tantos comentários. Não lembro de tanta divulgação. Foi um tiro pela culatra que deu certo. Teve erro? Teve. Mas quem pode criticar? Será que essa massa defensora da boa utilização dos termos já chegou perto de procurar saber todo o trabalho envolvido atrás de cada cartaz? A primeira idéia, o primeiro esforço?
Não julguem sem saber. Esse erro é mais ignorante que criticar o uso da ignorância.
Parabéns aos alunos da FACOS.
ALUNOS da FACOS. Bom chamar atenção para isso. Assim como também já fui criticado por alguns trabalhos, eles estão sendo criticados agora. E é ótimo, afinal são alunos. Estão lá pra aprender.
Parabéns por conseguirem tamanha atenção para a Feira. Essa sim, importante. Que o resultado de tanta crítica seja visto nos números, nas vendas. Espero que cada crítica seja convertida na compra de um livro. Esse é o princípio de tudo, afinal.
Espero que os que criticaram a ignorância não se unam a ela na hora de visitar a Feira. Tão linda a Feira.
Que os incomodados se tornem mais cultos, para provar o erro dos criadores da campanha. Que os ofendidos provem o contrário, lendo. Que os que entenderam o tom da campanha, divulguem, chamem novos leitores.
A Feira é quem merece a atenção. E até que enfim está tendo a que merece.
3 andaram comentando:
Texto fantástico!
Parabenizar uma campanha publicitária que projeta/difunde seu cliente a partir de material polêmico e restritivo é uma coisa que considero um tanto bizarra.
O legal é analisar que existem muitas críticas de cunho corrosivo, recalcado, tanto da parte "depreciadora" quanto dos que a defendem de modo passional. Ambos não merecem notoriedade, a meu ver.
O que está sendo mais criticado, considerando comentário dignos, é a campanha em si, não a FACOS como um todo.
Existem apontamentos reducionistas na campanha, que tocam elementos preciosos/basilares da educação e arte. Perpassam noções defasadas de conhecimento, leitura e estigmazação social. Parece exagero, mas aí que vemos a foça que a linguagem pode adquirir - para bem ou mal. Ainda mais vinculando-se a um evento que pretende difundir a produção literária e conhecimento humano!!
Por isso a comunicação visual, design e arte possuem áreas de estudo específicas e respeitadas.
Abraço!
Acho que tivemos alguns erros de interpretação. Parabenizei os alunos da FACOS por um erro que teve como resultado maior comentário sobre o tema, maior divulgação sobre a Feira.
Concordo também que a campanha foi restritiva: certeza que a linha que eles seguiram foi bastante perigosa. Mas desde que o mundo é mundo polêmica é forma de divulgação (ignorando-se formas melhores e piores), e está longe de ser uma bizarrice.
Em nenhum momento achei que as críticas fossem à FACOS.
A força da linguagem está para o bem e para o mal, concordo plenamente. Mas acho mais perigoso ainda considerar um perigo para o conhecimento como um todo ou um apoio à estigmatização. Existem exageros de ambas as partes. Deles, que não tiveram mais cuidado na utilização dos termos (e só deles), e dos outros, que tomaram uma parte como um todo. Todo o trabalho ficou limitado ao estigma. Se por um lado é restritivo, por outro lado abriu espaço para uma discussão necessária, afinal todos sabemos que nada dali é fantasioso: os estigmas sempre existiram mesmo concordando ou não que já estejam defasados. A teoria sempre foi mais bonita que a prática.
Só critiquei a limitação.
Sobre as áreas de estudo específicas, concordo plenamente (se é que é possível concordar com uma existência, hehe): acho inclusive que muitas das críticas (a favor e contra) provém de recalque, como disse. Todos sabemos que a briga entre a comunicação (publicidade, especificamente) com as artes sempre foi gigantesca, e está bem longe de terminar. Mas vale lembrar que comunicação visual é apenas uma pequena parcela da comunicação como um todo, muito mais abrangente, mas assim como as artes e o design, merecedoras de respeito. Julgar que publicidade é arte é uma discussão tão velha quanto os conceitos de comunicação, e acho que aqui nem cabem.
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