Vou tentar não ser muito parcial e me ater à análise do que realmente me incomoda nessa história dos alunos da USP.
Antes de qualquer coisa, to pouco me fudendo pra partido político, pro reitor, pra presidente, pro papa e pra qualquer outra autoridade passível de protesto. Quero analisar só os fatos e suas mediações, do MEU ponto de vista, que, como o seu, não é certo, nem errado, só é.
Fatos (de acordo comigo e mais ninguém):
Primeiro: aluno assassinado. Falta de segurança.
Segundo: PMs no campus. Medida tapa-buraco.
Terceiro: alunos com maconha.
Quarto: intervenção dos alunos no cumprimento da lei.
Quinto: protesto dos alunos por melhor policiamento. Invasão.
Sexto: ação judicial.
Sétimo: repressão ao movimento. Cumprimento da lei.
Não vou entrar aqui no mérito da questão da liberação da maconha ou da liberdade das focas amestradas dos parques aquáticos. Sou a favor da descriminalização das drogas. Mas acima disso sou a favor do cumprimento da lei. Sou a favor do aborto, mas se é crime, quem o fez precisa pagar. Mesmo eu sendo contra. Pra mim, a partir do momento que eu abro uma exceção aqui, não posso criticar um político corrupto que não vai preso. Lei é lei, deve ser cumprida, eu sendo a favor dela ou não.
Não vejo o movimento feito pelos alunos tentando impedir a prisão dos que portavam a droga uma atitude democrática. Eles estavam, sim, errados, e não há argumentos que provem o contrário. Querem democracia? Deixem os alunos assumirem seus atos, assumirem seus delitos e tá feita a democracia.
Meu problema com toda essa questão é: por que começar um movimento que seria justo e coerente a partir de um erro? Por que esperar que esse “incidente” acontecesse pra lutar por um melhor policiamento feito não pela PM, mas por uma polícia especializada?
Começou errado. Perdeu credibilidade. Não teve efeito.
Não critico as causas pelas quais os alunos lutaram. Estão no seu direito. Mas começar do jeito que começaram foi um erro.
Indo além disso, pra mim (PRA MIM) meu direito termina quando começa o do outro. Invadir um prédio público, nessas circunstâncias, pra mim, é criminoso. Quebrar uma cadeira sequer dentro de um prédio público, pra mim, é um delito. Não é teu, não quebre. A parede não é tua, não piche. Todo e qualquer movimento que impede o direito ou que fere o direito de outro pra mim perde a causa, perde a coerência (vide movimentos dos brigadianos que faziam barricadas nas BRs há pouco tempo).
Quer lutar por uma causa, lute. É seu direito. Mas lute com coerência e sem dar margem para ser acusado de alguma coisa.
Saindo do movimento em si para a forma como é feito, me fica a pergunta: até quando (deus!) os motivos que nos incitam a lutar serão os mesmos dos nossos pais (e até quando nos ídolos ainda serão os mesmos?). Fazer um protesto por um melhor policiamento tendo ao fundo uma pichação contra o capitalismo, é, pra mim, se não um conflito de interesses, uma utopia que eu acreditava estar extinta há pelo menos uma década.
Óbvio que liberdade, representação e direito ao povo são questões que sempre merecerão luta. Mas é preciso atualização. Protestar hoje com um livro vermelho desbotado em punho não te permite criticar a Veja por chamar os alunos de terroristas. A desatualização e a alienação tem o mesmo tamanho em ambos os lados.
Pra ficar no campo dos veículos, me vem a crise que me faz rir desde os primeiros dias da faculdade de comunicação: o ódio à Veja, à Globo e ao Paulo Coelho. O coitado do Paulo Coelho eu nem vou comentar, porque né. Não vale a pena.
Mas vou pra Globo e pra Veja. Gostaria de saber que cabeça ultrapassada e sem análise “empírica” alguma ainda acredita na fantasia de que ainda existe mídia/veículo imparcial. Não existe imparcialidade: a partir do momento em que uma matéria é escolhida, já existe a parcialidade de dar espaço a ela e não a outra.
Daí vem o argumento de que a mídia aliena as pessoas. Sim, possivelmente, vide estudos de massas. Mas prefiro muito mais acreditar na inteligência do povo e do maior poder comunicacional do mundo: o controle remoto nas mãos e a escolha da revista na banca. A Veja é parcial e de direita? Ok. TODO MUNDO SABE DISSO, NÃO É NOVIDADE PRA NINGUÉM. Mas não me venha criticar uma revista sem ler. Se você lê todas as edições, e apresenta outra revista como parâmetro, pra daí sim, a partir de uma terceira opinião, me mostrar o que pode ser verdadeiro e real, aí sim vamos conversar. Mas simplesmente criticar, só por criticar, não rola. Assim como não rola me apresentar uma revista de esquerda. Óbvio que será outra visão. Óbvio que as opiniões serão divergentes.
Se o povo é tão alienado como querem sempre dizer, a Veja não vai dizer nada pra ele. Nem a Globo. Nem qualquer outra revista, outro canal. Se o povo é tão alienado ele não dá a mínima pra qualquer movimento. Pra mim o povo já não é mais assim há algum tempo. Antes de acreditar na causa dos movimentos, acredito no poder de decisão do povo, e na sua inteligência.
Coerência. Só coerência. Coerência pra lutar e fazer um movimento com um objetivo claro. Coerência pra fazer um protesto contra algo que possa ser mudado. Coerência para não começar um protesto de um erro banal. Coerência para não apelar para o vandalismo criminoso quando a luta parece perdida, isso já configura apelação e fica no mínimo patético.
Todo mundo tem o direito de lutar pelo que acredita. Mas antes disso é preciso saber lutar. E saber lutar de acordo com o nosso contexto. Não cabe mais sair cantando “caminhando e cantando e seguindo a canção”. Aquele tempo já passou. Nossa luta agora é outra. E enquanto nossas ideologias não se desprenderem do passado, todas as lutas serão como essas: começam de um erro, terminam de forma ridícula e no final quem ganha são os “opressores” do início da história que saem cada vez mais fortes e donos da situação.
A Veja vai continuar publicando do mesmo jeito. A Globo vai divulgar o que ela quer, do mesmo jeito. Vale a pena lutar contra elas ou vale mais a pena acreditar e fazer o povo mudar sua maneira de "ler" mídia? Fazer um cartaz com um traço riscando a marca da Globo sempre me dá vontade de rir, e queria acreditar que quem o faz realmente acredita que vai surtir efeito. O dia que o povo mobilizador se livrar dessas amarras dos tempos da ditadura aí sim os resultados começarão a mudar. Se for pensar, qual foi a última vez que um movimento como esse da USP teve o efeito esperado pelos alunos? Até que ponto o movimento existe só pelo movimento? Realmente não sei.
Update: esse layout tá sofrível, mas tenho preguiça.
5 andaram comentando:
Os jornalistazinhos e suas opiniões de quem tudo-sabe-e-tudo-vê, com uma crtítica que nem com muito esforço molharia os pés de alguém! E ainda querem que seja garantido o direito exclusivo de fornecer informações jornalísticas: diplomados para falar merda! Só faltou, no final, parafrasear o idiota do Cassoy: Isso é uma vergonha!
sou publicitário, o que, em si, já elimina qualquer teor (inexistente) de informação jornalística, haha
hahahahahahahahahah.
adorei o chilique.
Comentar sem se identificar, isso sim é crítica que nem com muito esforço molharia os pés de alguém, convenhamos...
Xoão, gostei de umas coisas que escreveu, amo o teu texto, mas não concordo contigo e tu sabe hehe
Isso que é lindo Ju. A gente se ama, discorda de quase tudo e nem por isso se mata, heheh
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